Queria - no sentido de que quero, que não houvesse diferença de valorização das inteligências, competências, dons e afazeres.
Queria - no sentido de que quero, extinguir o termo e a ideia de carreira deste lugar. Tudo seria vida mesmo. Na verdade, já é. Só que as pessoas saberiam disso.
Queria - no sentido de que quero, um mundo de memes. Em que artista seria todo mundo. E ninguém.
Nada fixo ou planejado. Tudo acontecendo naturalmente - como meme mesmo. Um lugar onde você teria a plena noção de que seus ídolos estariam por aí. E você nem saberia quem são, exatamente. Porque, meio que seria todo mundo.
Queria - no sentido de que quero - uma TV aberta que fosse ditada e não ditadora. Sem concessões renovadas, sem imagens distorcidas.
Mas, de tudo tudo. De todas as linhas de coisas que queria - no sentido de que quero, queria mesmo era ser mais precisa nessa questão das diferentes importâncias que as pessoas tem. Que não tem - na verdade, mas que acabam tendo - na mentira.
É claro que tem música que a gente gosta, filme que a gente chora, programa que a gente assiste, livro que a gente recomenda.
Tem até time que a gente torce.
O que parece estranho é essa transformação da música, do filme, do programa, do livro e do time na pessoa, aumentando o valor e o preço dela.
Até acho que não tem nada de errado em "mal conhecer e já considerar pakas", mas queria - naquele mesmo sentido, que a gente conseguisse aplicar a todos os "mal conhecidos". Ou a nenhum deles.
E ia ser - no sentido de que será, tudo mais simples.
Tirando a concentração de importância das celebridades, todo mundo fica importante. Até porque ninguém mais importa (mais).
Vá você, fazer seu teatro porque você gosta. Porque é bom pra você. Porque você é bom nisso.
O aplauso vai diretamente para a sua arte. Já você, você mesmo, fica sem esse crédito. Mas, sem descrédito também. Fica igual.
A todo mundo.
A todo mundo.
Junto com a carreira, ficaria também extinguido: paparazzi, autógrafo, seguranças de famosos e tabloides.
Iríamos, do latim iremos, todos ter mais tempo para se importar com o que importa, para cada um.
Nem a vida, nem a morte de ninguém vai ser mais significativa do que a vida ou a morte de ninguém. Vida vai ser um produto padrão tabelado.
A partir daí, a gente separa o alho do bugalho. O bugalho vai, o alho, fica. E é o alho que importa. Todo o resto é igualmente indiferente.
Eu queria - no sentido de que pelo amor de Deus quero muito, é fazer a minha arte em troco de um troco e mais nada. Pelo pleno prazer de fazer.
Pronto. Agora posso voltar a dormir.
Em tempos de cólera, é mais fácil sonhar dormindo.
Pela manhã a gente acorda para realizar.
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