Sobre um Rio, dia 23 de novembro de 2015.
Mãe, ontem eu chorei.
Chorei mesmo. Muito.
Até pensei em te ligar. Mas não deu.
Por conta do choro.
Choro denso, pesado.
Depois leve e descabido.
Soluçava.
E você não sabia.
Não ia nem desconfiar no dia seguinte quando me visse acordar com os olhos empapuçados.
E isso me fazia chorar mais.
Até de saudade da época que as minhas lágrimas caíam na sua perna.
Ou de como você dizia que uma banho resolveria tudo.
Tomei banho.
Não resolveu.
Aí fui entender o que querem dizer quando dizem "quando o filho chora e a mãe não vê".
E a mãe nem sempre é a mãe. A mãe é alguém que vá se importar.
E aí o choro vai. Vai andando pela calçada, pelo metrô. Entra no ônibus.
Um pedido indiscreto de socorro. Querendo achar uma mãe pelas ruas ou nas poltronas do ônibus.
Mas não desviei do meu caminho.
Fui à aula de teatro ontem. Limpei o rosto e aproveitei que já estava fanha por conta da gripe e fui.
Ninguém reparou. No máximo acharam que eu estava muito doente ou muito acabada ou que só fosse mesmo, muito feia.
E o choro continuava escorrendo. Agora por dentro.
E foi lavando. Deixando de molho.
Acabou, fui pra casa e tava chovendo.
Ótimo! Qual a diferença entre gotas salgadas e doces na noite para pessoas não-mães?
Tava disfarçada. Mesmo sem querer.
Cheguei em casa e pensei: - Agora nem se eu quisesse, as meninas me conhecem e eu não vou fazer a pose da forte que não chora. Vou chegar e falar que tive um dia péss...
-Ninguém.
Sala vazia, luzes apagadas.
Entendi.
Aquele choro era meu. Só meu. Sozinho.
Não admitia outra maneira de se expressar. Não queria usar da fala nem da audição.
Não queria ser consolado, controlado. Deixa o choro chorar.
Fui comer.
Tomar banho.
Numa forma quase mecânica e meditativa de fazer as coisas.
Cada ato tinha (só) todo o peso dele. Tirar a roupa, guardar o sapato. Nada daquilo fazia muito sentido para quem só queria chorar.
E fui chorando.
Sem fazer cara feia, sem me esforçar.
As lágrimas vinham quase como quem sai de um congestionamento. Prontas e loucas para serem o que eram. Lágrimas!
E para que mais elas servem se não para compor o choro?
Eu tava meio surpresa com aquele choro fácil de novo.
Tem sido tão difícil.
As vezes uma ou outra escapa no final de uma série ou quando toca aquela música.
E tem dias que estou vendo o enorme esforço delas em existir. E não sei porquê, não sei como. Simplesmente a fantasia de adulto que eu tenho vestido vem com um conta-gotas super ajustado.
Mas ontem eu voltei a sentir como quando a minha borracha rasgar a folha do meu dever de casa, era motivo mais que suficiente para o meu mundo acabar. Pelo menos naquela noite.
Dessa vez a borracha teve que rasgar muitas folhas. Foram muitos deveres de casa perdidos, mas eu encontrei aquela Nathália.
Fraca. Soluçante. Feia. Sem justificativa.
Visão embaçada. Literal e metafórico.
E eu não queria ter que pensar no gatilho do choro.
Evitei tentar resolver mentalmente.
De novo meu choro pedia exclusividade. Quase não houve espaço para o sofrimento.
Era só o choro sendo ele.
Molhado.
E eu não quis dividir esse momento tão sublime com ódios, raivas ou planos malévolos que poluíssem minhas águas cristalinas.
Não quis dividir esse espaço bonito com pessoas ou coisas que me pareciam feias.
Na verdade, os problemas nunca são as pessoas ou as coisas.
É como a gente sente. Como a gente vê. E eu tinha aberto mão da feiúra. Naquele momento eu tinha aberto mão de quase tudo.
Só ficou o choro.
Tinha muita coisa a flor da pele, mas ele ganhou. Imperou sobre todas as outras vontades.
A de ver TV, de tomar remédio para dor de cabeça, de escutar música.
O dia era dele. A noite, mais ainda.
Minha mãe não me ligou. Nem meu pai. Ninguém.
Meu anjo passou por todos os cantos e cuidou desse momento.
Do choro ser só meu. De eu ser só dele.
E foi.
Está sendo.
Um choro que resistiu. Um choro irresistível.
E foi aí que eu vi que essa fantasia era, como todas as outras, ilusão.
Que não tem roupa de adulto e se tem, a única diferença é que ela é maior.
Para caber.
E quem diz que não se resolve problema chorando... Não sabe que sem chorar é muito mais difícil.
O choro não é pra resolver. Mas é pra acontecer.
Pra deixar o corpo falar de um jeito que é só dele.
Quando não tem conversa, não tem texto, não tem racionalidade.
Quando só tem o choro falando. Sem conversar...
Numa língua que talvez os anjos, Deus, o Universo ou a força da gravidade entenda.
E isso basta.
E isso é ser adulto.
É igual ser criança. Só que grande.
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