quarta-feira, 22 de abril de 2015

Meu cabelo, minha cabeça

Foi em uma das reuniões com a minha orientadora de monografia, Fernanda Martineli, que ouvi pela primeira vez a afirmação de que cabelo é um ato político.  É provável que eu não tenha assimilado, ainda, nem 10% de tudo o que isso quer dizer, mas é inegável que essa porcentagem compreendida deve-se à minha experiência capilar metamorfósica. 

Lembro que nessa época eu acumulava muitas transições. Estava me despedindo da faculdade, de Brasília e, principalmente, da identidade física que eu tinha desde quando eu nem sabia que precisava ter uma.  Há mais de um ano sem alisar os cabelos, os poucos centímetros de raiz continuavam oprimidos pela sobreposição das pontas esticadas.


Depois que passa, a gente entende que o processo de transição só é tão intenso e sacrificante porque ele envolve muita mudança interna também. Você está saindo de um lado (ou de lado nenhum) para assumir um lugar certo. Mesmo que despretensiosamente você está caminhando para existir de uma forma menos passiva e discreta. Você vai ganhar volume, densidade, voz.


Verdade que o que aquela época tinha de complicada, nem se compara ao que esta de agora tem de leve. Abusando do poder de comparar A com B, declaro a quem possa interessar que as faltas que temos durante esse período transitório (de auto-estima, de segurança, de paciência e de coragem) nem aparecem quando as colocamos lado a lado com tudo que se ganha depois. Às vezes eu parava para suspirar pensando que não era justo tanto sacrifício para se conseguir o que é natural. Por que eu preciso travar essa luta para ter o que sempre foi meu?


Por que?


Porque um dia pareceu mais fácil e natural  seguir um caminho que já tinha um monte de gente de franja seguindo  e eu decidi que não queria me destacar disso. Na verdade, era como se eu nem soubesse que podia decidir diferente. Mas o decidir diferente  chegou e o primeiro passo prático foi dado longe de casa. Longe do lugar que eu tinha aprendido a ser de um jeito. Perto de onde eu queria ser de outro.  Não acho que tenha que ser assim. 


Talvez para as pessoas de maior coragem, ter testemunhas oculares seja até mais estimulante. Não foi o meu caso:


Tinha acabado de chegar no Rio. Estava em Niterói e resolvi passar em um salão especializado em cabelos afros para, quem sabe, decidir alguma coisa sobre meu cabelo indeciso. Cheguei em um dia de muito movimento e peguei uma das últimas senhas. Já era uma experiência toda diferente estar em outra cidade olhando, vendo e ouvindo os tipos típicos. Aquele salão era ainda mais revelador. Todas mulheres, negras e de cabelo crespo em sua maioria. Todas assumindo um visual diferente da maioria alisada e esticada da qual eu me encaixava. Há mais de um ano eu havia parado com todos os tratamentos químicos que davam um aspecto esticado aos meus cabelos desde muito tempo. Quando vi, alguém me perguntou se eu iria querer cortar ali mesmo para tirar toda a parte “lisa” do cabelo. Com o mesmo susto que recebi a proposta, a devolvi com um rápido sim!

Ela me pegou pela mão e me levou até a cabeleireira que ia cortar meu cabelo... Seco? 

- Exatamente!

De toda forma, desde que parei com os alisamentos no meu cabelo, a intenção sempre foi a de tê-los cacheados outra vez... Mas já? Assim? No seco? Sem me despedir?


E foi então que eu percebi mais uma vez o tipo de pessoa que eu sou. Assim! No seco! Sem me despedir!  Olhando o meu histórico, para pegar no tranco eu sempre tive que me ver assim, frente a frente com uma situação radicalizante que pudesse mudar tudo ou no mínimo, muito! E dessa vez eu estava trocando um cabelo no ombro por 7 centímetros de cachinhos ainda indefinidos por não saberem como era ser cachinhos.


Eu não lembro muito bem o que estava pensando quando ouvia o tréqui tréqui da tesoura, mas era uma curiosidade entre quem eu serei agora? e quanto deve ser uma peruca?

Depois disso, atravessei o salão com meu novo cabelo que estava tão assustado e despreparado quanto eu. Fui acompanhada de uma das funcionárias que me levou para uma sala onde aguardei a hidratação para só depois voltar para fazer o corte de fato.

Esse processo demorou um pouco mais do que eu estava prevendo e quando era umas 19h liguei para uma das donas do ashram em que estava para notificar sobre o meu provável atraso. Saí do salão mais de 22h e me vi em um terminal de ônibus sem saber direito quem eu era e de que lado sairia o ônibus que eu deveria pegar. O rapaz que me informou foi até muito cheio de boa vontade e quase entrou na minha estatística como o primeiro homem que me paquerou com aquele cabelo novo, mas, por dentro eu trazia a sensação de carregar uma tela piscante na testa que dizia: OI SOU NOVA AQUI ESTOU PERDIDA QUERO CHORAR E ESSE CABELO AQUI EM CIMA NEM MEU É.


No dia seguinte eu acordei e lembrei (ou me lembrei e acordei): meu cabelo! Que que eu fiz? A noite eu tinha evitado me encarar no espelho ou nos vidros fumês dos carros. Mas agora eu ia, pela primeira vez dar atenção aos meus cabelinhos tão curtinhos. Antes de abrir o olho, toquei-os e chorei. Chorei muito. Chorei quase tudo. Chorei a despedida rápida dos meus pais, chorei o quase assalto do dia anterior, chorei por estar num ashram, chorei por não ter mais cabelo grande, por estar sentindo que agora era adulta e não podia resolver nada chorando.


Logo me levantei, vesti uma roupa, meditei e saí. Fui tirar algumas fotos para atualizar meus amigos e a Carol do meu novo visual ainda tímido e sem muita identidade. Depois, peguei alguns feedbacks e fui gastar o pouco que tinha com acessórios: batons, brincos, colares, flores, faixas e lenços.


Ainda lembro da sensação de estar involuntariamente sendo alguém que eu ainda não era. Eu andava na rua e tentava ler o pensamento de cada um que me olhava. Será que ele acha que eu sempre fui assim? Será que não está gritante o quanto eu estou desconcertada nesse visual? E a parte boa era justamente essa: claro que não! Ninguém tinha me visto antes. Nem mesmo as mulheres do ashram perceberam tamanha alteração. Elas me viram apenas uma vez com o cabelo antigo – enrolado em um coque – em meio a uma noite bem agitada. Fora isso, todos ali me viam e me veriam pela primeira vez assim, do jeito que eu era agora. Ninguém estava esperando nada e nem iam perguntar aquele desconcertante por que fez isso? E por mais que eu saiba que não deva me importar com as opiniões e expectativas alheias, é bem mais maravilhoso quando elas nem existem.


Ótimo! Mais uma vez eu tinha tomado a decisão certa e se a minha viagem acabasse ali, já tinha valido a pena!



...


Fase 1: Primórdios da vida esticada 
Longa Fase 2:  Achando que já era feliz o suficiente 
Difícil fase 3: A transição trabalhada no coque 
Chefão/Fase 4: O corte 
Fase 5: A aceitação do volume 
Fase 6: Inventando moda com o black
Fase eterna: em meio a outras transições



E nunca acaba, né?
Já to pensando na próxima fase...







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