segunda-feira, 9 de novembro de 2015

vida pássara

Alguém disse pro Mateus Solano que disse pro Michel Melamed - e pra gente que assistiu ao Bipolar Show no último domingo 08, pelo Canal Brasil - que:

O teatro é como um passarinho... 
Às vezes pousa sobre o ombro do ator. O ator, egocêntrico que é, quer prender esse passarinho, tê-lo para si.  Mas só de pensar em capturá-lo, o passarinho já voou. Porque o teatro não é de ninguém, ele é maior. Sagrado.

Não saiu ipsis litteris, mas é basicsis issis.

E, desde então, eu tô aqui. Só de olho nesses passarinhos diversos que a gente não acha, mas que acham a gente. Que a gente não tem, mas meio que são nossos mesmo assim.

Na ocasião, falava-se de teatro, mas veja só como essas aves estão voando e pousando em todos os aspectos da vida.

Nada é nosso. Ou,
tudo é nosso. Ou,
tudo é de todo mundo.

Nada nos pertence exclusivamente e mesmo que existam casos em que nossa esperteza nos permita capturar esse passarinho... Que graça tem em ter um passarinho preso? Que graça é ter algo ou alguém que quer ou pode voar?

Na verdade, a questão não é nem "que graça?", mas: por quê? Para quê?

Deixar voar. Deixar pousar.
Saber que desses três, "deixar" é o único dos verbos que depende da gente.

Perceber que tentar controlar a vontade e os motivos do passarinho é inútil, pretensioso e frustrante.

Abrir mão de controlar tudo o que não depende de você. Ou seja: quase tudo mesmo.

E então, se ater ao que depende. Fazer tudo e muito. Até o fim. Com força. Assumir, de fato, o controle do que podemos controlar. Saber que para isso precisamos aprender a dizer não e sim para as coisas. Se posicionar, mesmo que a posição seja de rendição, de mãos para o alto, de não tá comigo! 
Mas é preciso que ele, o posicionamento, exista.

Veja como é fácil (de escrever):

- Descubra o que depende de você
- Cubra o que não
- Pegue as coisas que não dependem de você (99%) e não pegue
- Administre com preciosismo todo o 1% que está sob a sua administração e mexa bem.
- Acrescente fé nos dois potes
- Deixe os ombros livres para pousos e decolagens
- Deguste. Inclusive nos intervalos.


Pronto!
Agora quem conseguir, conta aqui o sabor que tem.





sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Aniversário com fuso




Como perceber a distância?

Em dias comuns: 

- lonjura;
- saldo insuficiente para fazer esse tipo de chamada
- alô! alô! alô!.... Carol? Carol? Carol?
- bom dia = boa noite
- cama sobrando
- palavras sobrando

Em dias como 22 de agosto:

- todos os anteriores
- olhos querendo chorar
- braços querendo esmagar
- mãos querendo apertar bochechas de irmã aniversariante

Filhote,

Um dia ouvi que "quando a gente ama, os olhos fecham."



- EU FIZ MINHA PARTE. 

um beijo





quinta-feira, 23 de julho de 2015

Chuva molhada

A segunda segunda é sempre mais difícil que a primeira. E se estiver chovendo então...

Quarta passada eu comecei meu projeto vidasaudávelfitness2015rio+saúde. Muito mais difícil do que começar na prática, é tomar a decisão.

Dessa vez parecia tudo mais sensato. Menos idealização, mais começa,fia. Não fui na C&A comprar leggings, tops, camisetas e acessórios estilosos. Dessa vez me subestimei mais. Vai que é fogo de palha igual às outras 47 vezes anteriores. Deixei o estímulo maior vir de dentro. Foi um sistema novo de recompensa que fiz comigo mesma. Se antes eu me presenteava para me estimular, agora queria ver se eu merecia o presente antes.

Primeira quarta: ok.
Eu caminhava com muitas expectativas. Entre elas, a de viajar pra casa no fim de semana e não ter que caminhar quando estivesse lá.
Quinta: ok, sexta: ok.
Sábado e domingo: já era abono por direito e segunda cheguei já direto pro trabalho.
Terça?  Calma, preciso dormir. Me questionei e me convenci de que era melhor deixar as cobranças leves pra tentar dar uma cara mais de quero do que de tenho para minha atividade física.
Tá. Mas e quarta?
Bom, quarta fazia uma semana que eu havia começado meu projeto e eu estava bem dormida e disposta.
Vamos? VAMOS!
Acordei, comi, alonguei, saí e. Tá chovendo.
anjo: - isso lá é chuva? não dá nem pra ver os pingos.
capiroto: - que sem noção! logo hoje que veio de short. tá parecendo uma louca sem contexto que ainda não aguenta correr e decidiu que vai andar na chuva.

Fui escoltada pelos dois e decidi que ia parar de chover logo logo e que. Tá, a chuva engrossou consideravelmente e meu capuz já estava grudado na minha cabeça de tão molhado.
Foi aí que eu pude ouvir os argumentos do anjo traduzidos no dito popular:

Quem tá na chuva é para se molhar.

plim
.
.
.





digo, 





Literalmente e metaforicamente aquilo me respondia muita coisa.

1. Eu decidi começar a me exercitar porque quero melhorar meu condicionamento, meu físico, minha saúde.
2. Meu compromisso é fazer isso todos os dias da semana, antes do trabalho.
3. Eu não tenho o poder de controlar o clima, o tempo, os ventos, a temperatura.
4. ler o 2

Logo, se mesmo sabendo da minha capacidade não-deus de ser, eu fiz esse compromisso, eu me comprometi a: fazer exercício na chuva, se e quando ela viesse. E se eu to na chuva, não tem capuz, não tem cara feia, não tem toldo que impeça ela de cair.

E isso foi se aplicando a tudo.
Veja:

1. Eu decidi vir morar no Rio porque quero ir atrás da minha realização profissional artística.
2. Meu compromisso foi de buscar, tentar, me expor, plantar isso todos os dias da semana. Antes, durante e depois do trabalho.
3. Eu não tenho o poder de controlar as condições externas
4. ler o 2

Logo, não faz sentido deixar o compromisso de lado só porque existe uma parte que não posso controlar. São coisas diferentes e não é porque eu não possa fazer tudo que eu vá fazer nada.

E de forma simplificada, essa fórmula vai servindo e fazendo a gente perceber o óbvio do ditado:
A chuva molha. 

1. Eu decidi isso
2. Me comprometi a: _______________________________
3. Eu não controlo o mundo
4. Leia de novo seu compromisso e veja que ele ainda vale mesmo sem esse controle do mundo.

Logo: Continue fazendo com sol ou com chuva porque nada existe sem um ou sem outro. Um dia um dos amores da minha vida disse: "Certamente, também virão tempestades, mas elas servirão para botar de molho, lavar e enxaguar a alma. Limpeza completa". Tá certo que nem sempre queremos tomar banho, mas né? É PRECISO.

O MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE: Correr na chuva pode causar escorregões, gripes, pneumonias e outras complicações. Foi uma metáfora. Ponderem sobre ela.

- Faça como a Leonarda* e mande a sua fórmula personalizada:

1. Eu estou apaixonada
2. Decidi viver isso
3. Não controlo os sentimentos da outra parte
4. Ler o 2

Logo, não vou deixar de agir de acordo com os meus sentimentos só porque eu não tenho certeza sobre os dele.

É isso mesmo, Leonarda! Beijão!


* essa personagem é tão fictícia quanto você




terça-feira, 9 de junho de 2015

Vida Zinha

Zinha passava os dias assim.
Com dor nas costas.
Essa dor surgia sempre após o riso. 
E todo dia era isso.
Nem médico, nem chá, nem simpatia.
Parecia feitiço. 
- Que remédio, se este já é o próprio riso?
Não podia dar um risinho que as costas davam enguiço.
- É melhor se conter, 
diziam. 
Mas Zinha não conseguia.
Não conseguia e ria. 
Ria muito.
Todo dia.
Zinha não sabia se reclamava ou se agradecia.
Os momentos sem dor eram um horror.
E quando ria, pagava pela sua alegria.
Não sabia se o riso vinha antes da dor
Ou se a dor era que vinha depois do riso
Só sabia que sem um, o outro não existia. 
E o preço desse pacote, 
Pra Zinha, valia.







Seu pedido já saiu para entrega.

E se você soubesse que o que você sempre quis já saiu de lá e está vindo?
E se tivesse essa certeza?
E se, ao menos, você soubesse o que sempre quis?
É muito fácil sentir-se insatisfeita com qualquer passo em falso, qualquer promoção que não tenha vindo ou com qualquer coxinha que venha sem catupiry.
Sei exatamente o que me irrita, me entristece, me desaponta.
Mas, o que eu quero de verdade? O que eu espero? Fora a coxinha com catupiry e ganhar na loteria, não faço a mínima de como chegar lá. Na verdade, não faço a mínima de onde seria esse lá.
Na verdade da verdade da verdade, não faço a mínima se esse lá existe.
Difícil é falar sobre o que não é fácil.
E um difícil sempre puxa o outro.
Se tá difícil, a garganta fecha. A garganta fechando, a gente não sente fome. Sem fome a gente não come e quando a gente não come, o corpo não aguenta.

E a alma, minha cara, a alma ainda precisa do corpo.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

É val ser feliz?

E sempre que algo de muito bom estiver prestes a acontecer... Deixe que o "assim seja".
É bem verdade que o boicote está sempre ali, ao alcance das mãos. A um passo, um sinal, um send. 
Calma! Tá tudo bem ficar tudo bem.
Se as tempestades chegam de maneira abrupta, sem pedir licença ou permissão, aproveite os tempos de estiagem para dar passagem aos dias coloridos que sempre são mais respeitosos. Eles costumam avisar. Alertam a intuição, o corpo, a mente.
Isso nos deixa num estado que não estamos acostumados. É tão bom para ser verdade que, às vezes, preferimos que não seja. Não sabemos lidar com o que não sabemos lidar. Oxe! É val* ser feliz assim? À toa?
Aceita, amor!
Assim como é inútil viver de maneira antecipada o mal prenunciado, é ridículo tirar as boas condições de pressão e temperatura que prometem os bons ventos. 
Deixa vir. Deixa ser. Aceita a falta de controle da vida. 
É simples. 
Muito simples.
Diante da complexidade que ousamos praticar diante do que?
Do que que eu to falando?
Vou viver aqui. 
É mais simples.

Bem mais simples...

* expressão muito comum no interior do estado goiano que reduz a expressão: é válido, mantendo seu significado. Normalmente utilizada para legitimar regras de jogos/brincadeiras/zoeiras, autenticando o que é e o que não é val. Expl.: Jogar o chinelo no pique-bandeirinha não é val.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

NonsenSeConto

Ah, ele é legal. Acho que gostei dele. O beijo foi médio, mas ele é legal. Mandou mensagem. Inteligente. Definitivamente ele é legal. Mas, acho que é só. Aquele é mais gatinho. Aff. Aquele é babaca. Gente, esse mandou mensagem de novo. Bem legal mesmo. Mas tá muito afim. Eu devo ser mais legal que ele. Ok. Vou sair. Realmente, o mais legal de todos. Deixa eu ver melhor esse facebook. Nossa, que posicionamento político, que humor, que sarcasmo, que. Defeito. Esquece. O cara dos meus planos não vem com defeitos. Não deve ser ele. Olha, ele aqui de novo. Acho que hoje foi melhor do que da última vez. E aquele babaca ainda está lá. Babaca lindo. Mas esse é a melhor companhia que eu tive nos últimos tempos. Ok, pode ser ele. Minhas amigas gostaram dele. Minhas amigas gostaram muito dele. Gente, tô gostando também. Cadê ele? Ah, tá aqui. Ele sempre tá. E agora? Vou assumir. Acho que quero. Tá, quero. Vou demonstrar. Demonstrei. Saco, ele ficou muito seguro. Melhor eu dar um gelo. Ele percebeu. Será? Acho que não preciso disso. Nem quero. Se os dois querem tá tudo certo. Mas eu só sei de mim, melhor esperar a primeira mensagem ser dele. Ok, mandou. Vou esperar um pouco para responder. Aff. Pra que? Quero responder agora. Respondi. Ele também. Nos vimos. Nossa, esse beijo tá melhor. Gente, de perto assim ele é muito mais bonito do que aquele babaca. Ai, to apaixonada. E ele? Deve estar também. Por várias. Hoje é sexta. Tá calado. Ai, que bobeira. Só vai ter graça se ele quiser também. Não vou me angustiar. Vou pensar em outra coisa. Vou comer. Tá, já comi muito. Vou sorrir aqui com os amigos. Saco, já é sábado. To pensando de novo. Mas ele queria. Mais que eu. Onde foi a virada? Quando? Não importa. Ainda bem que virou. Para eu sentir. Não quero brincar de ser feliz. Se for para ser correspondida, tenho que corresponder. Ai, Jesus, melhor eu comer. Espera. Olha aquele babaca aqui de novo. Realmente... O que tem de babaca tem de lindo.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Poema do Coração

Vai continuado vaievem e zigzag. 
Continuada insistência sobre o coração
Seguem ferindo-o e atacando-o. Meio que rabiscando e apontando. 
É fato, tão fato quanto um dia passado, que ele cansa. 
Reage. 
Tamanha a quantidade de ataques, em diferentes direções e profundidades. 
Ele desperta. 
Do mesmo modo que bate, se defende e, se defendendo, não admite mais maus tratos. 
É aconselhável, portanto, que não se provoque o coração até esse ponto. 
Quando a medida transborda, derrama e, derramando, não mais para. 
Não cuida, não ouve mais. 
O amor próprio é de tamanho dobrado e nem com muito arrependimento ele sucumbe ao perdoado. 

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Meu cabelo, minha cabeça

Foi em uma das reuniões com a minha orientadora de monografia, Fernanda Martineli, que ouvi pela primeira vez a afirmação de que cabelo é um ato político.  É provável que eu não tenha assimilado, ainda, nem 10% de tudo o que isso quer dizer, mas é inegável que essa porcentagem compreendida deve-se à minha experiência capilar metamorfósica. 

Lembro que nessa época eu acumulava muitas transições. Estava me despedindo da faculdade, de Brasília e, principalmente, da identidade física que eu tinha desde quando eu nem sabia que precisava ter uma.  Há mais de um ano sem alisar os cabelos, os poucos centímetros de raiz continuavam oprimidos pela sobreposição das pontas esticadas.


Depois que passa, a gente entende que o processo de transição só é tão intenso e sacrificante porque ele envolve muita mudança interna também. Você está saindo de um lado (ou de lado nenhum) para assumir um lugar certo. Mesmo que despretensiosamente você está caminhando para existir de uma forma menos passiva e discreta. Você vai ganhar volume, densidade, voz.


Verdade que o que aquela época tinha de complicada, nem se compara ao que esta de agora tem de leve. Abusando do poder de comparar A com B, declaro a quem possa interessar que as faltas que temos durante esse período transitório (de auto-estima, de segurança, de paciência e de coragem) nem aparecem quando as colocamos lado a lado com tudo que se ganha depois. Às vezes eu parava para suspirar pensando que não era justo tanto sacrifício para se conseguir o que é natural. Por que eu preciso travar essa luta para ter o que sempre foi meu?


Por que?


Porque um dia pareceu mais fácil e natural  seguir um caminho que já tinha um monte de gente de franja seguindo  e eu decidi que não queria me destacar disso. Na verdade, era como se eu nem soubesse que podia decidir diferente. Mas o decidir diferente  chegou e o primeiro passo prático foi dado longe de casa. Longe do lugar que eu tinha aprendido a ser de um jeito. Perto de onde eu queria ser de outro.  Não acho que tenha que ser assim. 


Talvez para as pessoas de maior coragem, ter testemunhas oculares seja até mais estimulante. Não foi o meu caso:


Tinha acabado de chegar no Rio. Estava em Niterói e resolvi passar em um salão especializado em cabelos afros para, quem sabe, decidir alguma coisa sobre meu cabelo indeciso. Cheguei em um dia de muito movimento e peguei uma das últimas senhas. Já era uma experiência toda diferente estar em outra cidade olhando, vendo e ouvindo os tipos típicos. Aquele salão era ainda mais revelador. Todas mulheres, negras e de cabelo crespo em sua maioria. Todas assumindo um visual diferente da maioria alisada e esticada da qual eu me encaixava. Há mais de um ano eu havia parado com todos os tratamentos químicos que davam um aspecto esticado aos meus cabelos desde muito tempo. Quando vi, alguém me perguntou se eu iria querer cortar ali mesmo para tirar toda a parte “lisa” do cabelo. Com o mesmo susto que recebi a proposta, a devolvi com um rápido sim!

Ela me pegou pela mão e me levou até a cabeleireira que ia cortar meu cabelo... Seco? 

- Exatamente!

De toda forma, desde que parei com os alisamentos no meu cabelo, a intenção sempre foi a de tê-los cacheados outra vez... Mas já? Assim? No seco? Sem me despedir?


E foi então que eu percebi mais uma vez o tipo de pessoa que eu sou. Assim! No seco! Sem me despedir!  Olhando o meu histórico, para pegar no tranco eu sempre tive que me ver assim, frente a frente com uma situação radicalizante que pudesse mudar tudo ou no mínimo, muito! E dessa vez eu estava trocando um cabelo no ombro por 7 centímetros de cachinhos ainda indefinidos por não saberem como era ser cachinhos.


Eu não lembro muito bem o que estava pensando quando ouvia o tréqui tréqui da tesoura, mas era uma curiosidade entre quem eu serei agora? e quanto deve ser uma peruca?

Depois disso, atravessei o salão com meu novo cabelo que estava tão assustado e despreparado quanto eu. Fui acompanhada de uma das funcionárias que me levou para uma sala onde aguardei a hidratação para só depois voltar para fazer o corte de fato.

Esse processo demorou um pouco mais do que eu estava prevendo e quando era umas 19h liguei para uma das donas do ashram em que estava para notificar sobre o meu provável atraso. Saí do salão mais de 22h e me vi em um terminal de ônibus sem saber direito quem eu era e de que lado sairia o ônibus que eu deveria pegar. O rapaz que me informou foi até muito cheio de boa vontade e quase entrou na minha estatística como o primeiro homem que me paquerou com aquele cabelo novo, mas, por dentro eu trazia a sensação de carregar uma tela piscante na testa que dizia: OI SOU NOVA AQUI ESTOU PERDIDA QUERO CHORAR E ESSE CABELO AQUI EM CIMA NEM MEU É.


No dia seguinte eu acordei e lembrei (ou me lembrei e acordei): meu cabelo! Que que eu fiz? A noite eu tinha evitado me encarar no espelho ou nos vidros fumês dos carros. Mas agora eu ia, pela primeira vez dar atenção aos meus cabelinhos tão curtinhos. Antes de abrir o olho, toquei-os e chorei. Chorei muito. Chorei quase tudo. Chorei a despedida rápida dos meus pais, chorei o quase assalto do dia anterior, chorei por estar num ashram, chorei por não ter mais cabelo grande, por estar sentindo que agora era adulta e não podia resolver nada chorando.


Logo me levantei, vesti uma roupa, meditei e saí. Fui tirar algumas fotos para atualizar meus amigos e a Carol do meu novo visual ainda tímido e sem muita identidade. Depois, peguei alguns feedbacks e fui gastar o pouco que tinha com acessórios: batons, brincos, colares, flores, faixas e lenços.


Ainda lembro da sensação de estar involuntariamente sendo alguém que eu ainda não era. Eu andava na rua e tentava ler o pensamento de cada um que me olhava. Será que ele acha que eu sempre fui assim? Será que não está gritante o quanto eu estou desconcertada nesse visual? E a parte boa era justamente essa: claro que não! Ninguém tinha me visto antes. Nem mesmo as mulheres do ashram perceberam tamanha alteração. Elas me viram apenas uma vez com o cabelo antigo – enrolado em um coque – em meio a uma noite bem agitada. Fora isso, todos ali me viam e me veriam pela primeira vez assim, do jeito que eu era agora. Ninguém estava esperando nada e nem iam perguntar aquele desconcertante por que fez isso? E por mais que eu saiba que não deva me importar com as opiniões e expectativas alheias, é bem mais maravilhoso quando elas nem existem.


Ótimo! Mais uma vez eu tinha tomado a decisão certa e se a minha viagem acabasse ali, já tinha valido a pena!



...


Fase 1: Primórdios da vida esticada 
Longa Fase 2:  Achando que já era feliz o suficiente 
Difícil fase 3: A transição trabalhada no coque 
Chefão/Fase 4: O corte 
Fase 5: A aceitação do volume 
Fase 6: Inventando moda com o black
Fase eterna: em meio a outras transições



E nunca acaba, né?
Já to pensando na próxima fase...







segunda-feira, 6 de abril de 2015

Todo dia

Hoje o dia amanheceu meio cinza, tímido, respeitoso.
Nasceu meio que sem querer nascer, ponderoso.
Nos identificamos.
Era um pouco depois das 8h, meu olho ainda pensando se estava realmente aberto e meu corpo se arrastando para a área de serviço. Meu dia sempre começa naquela janela.
Lá faço minhas previsões meteorológicas, sinto o ar que passa entre a tela de proteção e aproveito para fiscalizar a vida do vizinho da frente que tem filhos lindos e um galo.
Sim, um galo.
Mas hoje não.
Hoje fui buscar esse apoio sem achar.
Queria a poesia do sol nas frestas, queria o céu claro e azul e toda aquela música de frozen que disfarça a remela dos meus olhos e serve de impulso para mais um dia vulnerável como todos.
Mas hoje não.
Hoje o dia parecia estar em plena ressonância comigo. Com meu cansaço retroativo, com minha cara de dor de barriga e com a minha respiração funda.
Ele suspirava comigo.
E foi bonito.
Foi bom perceber que apoio é muito mais do que alguém e/ou algo que nos sacuda e nos faça ver o lado bom da vida. Não podemos exigir tanto de alguém e/ou algo. Nem de nós mesmos.


Lição 1:
- Às vezes você só  precisa de alguém e/ou algo que te entenda profundamente, te pegue pelas mãos e fale: Eu sei. Tá foda, né? Eu concordo, tá uma merda total. Vem aqui, vamos ouvir Pablo juntos!

Lição 2:
- Se até o dia que é dia, tem o Sol e tem a Lua, tem os pássaros cantando, os rios correndo e tudo de mais maravilhoso como eu, você e Pablo, se até ele acorda sem saco às vezes... Aceita, meu bem: isso acontece!

Lição 3:
-Mesmo sem saco ele nasce, ilumina, faz o que tem que fazer e segue. Ao dia não é dado o direito de parar, de sucumbir e voltar pra cama. Ele segue acontecendo e nunca foi diferente. Entre chuvas revoltz e verões arregalados, ele nasce.

Todo dia.

terça-feira, 31 de março de 2015

Error!

Email. 
Urgente!!!
Ordem. Pagamento. Taxa. Conta. Anuidade. Vencimento. Cartão. Prazo. Mensalidade.
Validade da proposta, dos exames, do seguro, do aplicativo, do leite.
Transferência. Carnê. Cachê. Cadê?
Boleto. Conta. Crédito. Débito. Juros. LIS. Liso. TED, DOC. Dote.
Luz, gás, telefone, celular. Celular. Celular. Celular. Celular. Celular. Celular. 
R$ 3,00. R$ 3,20. R$ 3,40.
Kb, Mb, Gb.
Acordei, login
Viagem, check-in.
Férias, #pormaissegundasassim.
Praia, sem filtro.
Feio, sem foco.
- Um poste!
- Posta.
Respira?
Então prova,
Clica.
Clica. Publica. Nenhuma curtida
Escreve. Apága. É sem acento.
Ativa o corretor. Depressa. 2%.
Viu. Não visualiza.
Silêncio. Não fala. Digita.
Mais baixo. Sem caps. NÃO GRITA!
 online. To vendo. Responde.
Tô online. Já era. Me esconde.
Na foto, bonito.
Ao vivo não sei.
Não vi.
Não vivo.

terça-feira, 24 de março de 2015

Heitor,


 Quem te via, via sempre correndo.   
Parecia atrasado.  
Quem diria.   
Estava era adiantado. 
Adiantando.   
Correndo para fazer caber uma eternidade em 26 anos

.


Acho que agora já posso, consigo e preciso escrever um pouco.

Sempre foi assim: a caneta no papel ou os dedos no teclado deixam tudo mais organizado e sugere o peso de realidade.

Esse foi meu medo. A realidade.

Thor, seu vagabundo, olha o que você fez...

Um rombo na vida das pessoas que te conheceram.

Dia 12 seria mais um dia comum da vida, se não fosse aquele WhatsApp:

Miny: - Amiga, ta aí?
Eu: Agora to.
Miny: A tia do Thor acabou de me ligar.

Pronto, foi a primeira pontada da dor fina que se seguiria dali.
Mil minutos em um segundo.
O pânico de quem tá vendo um jarro de cristal caindo e mesmo sabendo que não há outro destino e que o estrago é certo, fecha o olho para tentar negar o que vai acontecer.

Miny: Ele pegou uma forte infecção bacteriana e não resistiu.

Pronto!
Quebrou.

A cabeça ia em todos os lugares. Queria conforto, consolo. Queria acordar.
Esperava uma próxima mensagem dizendo que era brincadeira.
- Tá, não pode ser. Ninguém brinca com uma notícia dessas.
Queria ver se aquele truque de abrir os olhos na hora fatal do pesadelo funcionava.
- Nada.
Queria um desfibrilador. Um milagre bíblico. Uma passagem para ontem. Uma outra realidade.

Eu não parava de te ofender mentalmente. Te xingar, te achar trapaceiro e te culpar pela dor que eu sentia.

Acredito que os espíritos se comunicam pelo pensamento, mas como você é recém-chegado por aí, talvez não tenha as manhas ainda. Mais garantido é escrever.

Gente, e você foi mesmo...

Na frente de todo mundo. Como sempre.

A revolta abre espaço quando penso que você viveu bem e direito. Viveu muito. E bonito.

Tá certo que planos não deviam faltar, mas pode deixar que a gente se vira daqui para tentar tocá-los.

Um dia você me disse que ia me assistir no palco da primeira fila e que me levaria rosas no final.
Porra!
Não cumpriu.

Um dia você me disse várias coisas.
Um dia eu também disse.
No outro, me calei. Não disse nada.
Mais nada.

O dia era seu aniversário. O último que eu poderia dizer alguma coisa. Mas, não disse.
NADA.

Passei um bom tempo ainda sem dizer e quando disse, disse errado.
Depois ficou tudo bem.
Menos você.

Porra dessa leucemia.

Não te vi mais.

Chorei. Esperneei.
Me encolhi. A posição lembrava a daquelas risadas compulsivas de antes.
Da festa, da sala de aula, do carro, do chat, da Eptg, da gente.
Ri. Gargalhei.

Quando eu morrer quero deixar lembranças doces como as suas. Na verdade, morrer acaba de se tornar menos aterrorizante. Você foi... Até você foi.

Você foi, IDIOTA?
Por que?

Isso tudo é tão surreal que me vejo no ímpeto de te ligar para contar sobre isso e puxar aquelas longas e profundas reflexões.

Talvez você tenha sido a pessoa que mais fez questão de me amar com demonstrações públicas de afeto. Talvez tenha sido meu amigo com menos reservas. Que se jogou nos meus braços antes mesmo que eu pudesse abri-los. Que mais renovou a minha fé em mim e tudo mais aquilo que valorizamos e sentimos falta, sobretudo, quando não temos mais.

E tem muitas mais particularidades.
Você é tão particular que soava imorrível.

Estava recuperando alguns textos e achei um em que te falei que você me fazia bem e como era raro pessoas assim.

Infeliz,
Agora isso acaba de se tornar mais raro ainda.

Chegando por aí, pergunte aos telespectadores da novela mexicana que foi nossa relação e confirme o quanto foi amado. O quanto fui covarde e o quanto ainda sou burra na tentativa de viver livre e feliz.

Menino, então.
O resto vou deixar por dizer.
Até o próximo contato e valeu.

Se já consigo falar sobre o que se foi. Ainda é impossível escrever sobre o que ficou.
Ainda estou assimilando.
Perdoando esse abandono prematuro.

Te aminho,

P.S.: Para constar
1) A senha do meu personare ainda é euamoothor
2) Você foi o primeiro defunto para quem eu escrevi.
3) Se eu fosse você cuidava para eu não morrer tão cedo, POIS, chegarei no bandão.

Beijos,

Beth, anta alada, ou como preferir.